Aldeia Kiriri: Terra de Encontro e Resistência
De 20 a 22 de março, a Aldeia Kiriri, situada em Barreiras (BA), se tornou um espaço de união e celebração. Este local acolheu mais de 120 mulheres de diversas comunidades, que se reuniram para participar do 4º Encontro e Feira das Mulheres pelo Cerrado do Oeste da Bahia. Organizado pela Articulação de Mulheres pelo Cerrado, este evento foi um marco de resistência e troca de saberes.
As participantes, que incluíam mulheres indígenas, geraizeiras, ribeirinhas, agricultoras, quebradeiras de coco babaçu, quilombolas e artistas, criaram um ambiente coletivo enriquecido por diálogos e partilhas, refletindo sobre a vida e a luta no Cerrado.
O primeiro dia culminou na recepção calorosa das mulheres Kiriri, que abriram as portas de seu território com alegria, música e iguarias locais. As interações iniciais promoveram um reencontro de histórias e experiências, estabelecendo um forte sentido de pertencimento entre as participantes.

Uma Nova Geração de Mulheres no Cerrado
No segundo dia, a programação começou com uma mística de abertura, que reacendeu as energias do encontro. A artista Conchita Silva apresentou uma performance íntima, destacando a conexão entre arte e as lutas das mulheres do Cerrado. Este momento simbólico estabeleceu a base para os debates subsequentes, centrados na ideia de que “tudo é político quando você é mulher”.
As conversas giraram em torno de temas como o território, o direito ao voto, e a defesa da vida, ressaltando a importância da participação feminina na democracia e no cuidado com os recursos naturais e a cultura local.
A presença de Lucinha, uma militante histórica e atual Deputada Estadual Suplente pelo PT-BA, trouxe uma perspectiva rica sobre a luta pela terra e a relevância da agricultura familiar; suas palavras ecoaram entre as mulheres, que compartilharam suas histórias de resistência face a adversidades.
Abertura com Música e Tradição
Outro aspecto importante do evento foi a valorização das tradições culturais. Ao longo do encontro, a música e as expressões artísticas foram fundamentais para criar laços. As oficinas de estandartes e biojoias propiciaram um espaço para que as mulheres expressassem suas bandeiras de luta, utilizando elementos do Cerrado como sementes e tecidos.
Essas atividades não apenas promoveram o empoderamento, mas também reafirmaram a identidade das participantes, revelando que a arte é um poderoso instrumento de resistência e afirmação cultural.
Debates que Transformam Realidades
Discussões evidenciaram como as realidades políticas e sociais estão entrelaçadas com as vivências das mulheres. A roda de conversa sobre as dificuldades enfrentadas pelas comunidades tradicionais enfatizou os desafios impostos pela exploração dos recursos naturais e pelos ameaças à sua forma de vida.
As falas durante os debates refletiram a resiliência dessas mulheres e suas vontades de resistir, destacando a necessidade de um movimento coletivo e organizado para a defesa do Cerrado e de seus modos de vida.
Educação Contextualizada nas Comunidades
Um dos principais momentos do encontro foi o lançamento da brochura “Território que Ensina: Saberes do Cerrado na Escola”. Esta iniciativa, fruto de um esforço colaborativo da Associação dos Pequenos Criadores do Fecho de Pasto de Clemente de Correntina e outras organizações, visa introduzir na educação formal os saberes e modos de vida das comunidades do Cerrado.
De acordo com Elizete Carvalho, integrante da associação, essa versão da educação busca garantir que as novas gerações reconheçam e valorizem o Cerrado, construindo um futuro consciente e respeitoso por parte daqueles que dele cuidam e dele se alimentam. Este projeto destaca a urgência de conectar as escolas às comunidades, respeitando as tradições e as histórias locais.
O material foi acolhido com grande emoção, refletindo um forte sentimento de identidade e pertencimento entre as professoras e participantes que reconheciam suas próprias vivências nas idiossincrasias apresentadas.
Arte como Ferramenta de Lutadora
As oficinas de produção de biojoias se destacaram no evento como uma forma tangível de unir arte e resistência. Cada mulher trouxe um pedaço de história de sua vida para ser expressa em forma de arte, transformando sementes do Cerrado em peças que carregam significados profundos de suas vivências e lutas.
Arte e cultura foram fundamentais para fortalecer o envolvimento e a identidade, mostrando que a expressão artística pode ser um ato de luta e resistência. Essas oficinas se tornaram um espaço importante para as mulheres compartilharem suas experiências e histórias de vida.
A Feira da Sociobiodiversidade em Destaque
A Feira e Noite Cultural das Mulheres do Cerrado foi um dos eventos mais aguardados, promovendo um intercâmbio entre as comunidades tradicionais e a população urbana. A Praça das Corujas se encheu de sabores e saberes, onde o público teve a oportunidade de conhecer e consumir produtos locais.
Além das apresentações musicais que celebraram a cultura local, como as do Bloquinho “Cerrado: Coração das Águas”, a feira destacou a relevância das economias comunitárias e a preservação do bioma. Os produtos expostos, fruto da biodiversidade local, possibilitaram renda e fortaleceram a conexão entre as mulheres e suas raízes culturais.
A Água como Direito e Desafio
No último dia do evento, seguindo o Dia Mundial da Água, as participantes mobilizaram-se para denunciar a crescente escassez hídrica e suas consequências sobre os modos de vida no Oeste da Bahia. Com discursos firmes, as mulheres destacaram que a água é um direito humano básico e não uma mercadoria.
As falas ficaram marcadas pelo medo das comunidades de perder as nascentes e rios que sustentam suas vidas, enfatizando que a luta pela defesa da água está conectada à luta pela preservação das identidades e modos de vida. Essa sitiação reforçou que a defesa do bioma é inseparável da proteção dos corpos e das comunidades que nele habitam.
Parcerias que Potencializam a Luta
O sucesso do encontro não seria possível sem as parcerias estabelecidas ao longo dos anos. As alianças com instituições como o ISPN, a Comissão Pastoral da Terra, a Cáritas, e a Agência 10envolvimento foram imprescindíveis para garantir que as vozes e experiências das mulheres fossem ouvidas e respeitadas.
Essas colaborações fortalecem as raízes das comunidades e garantem que a luta pela preservação do Cerrado continue. A solidariedade entre as organizações reforça a ideia de que a resistência é coletiva e que apenas juntas conseguirão desafiar as injustiças.
Um Futuro de Esperança no Cerrado
O encontro na Aldeia Kiriri foi mais que uma simples reunião; foi um símbolo da força e da vitalidade das mulheres do Cerrado, uma reafirmação de que suas lutas estão atreladas à sobrevivência do bioma e ao futuro de seus descendentes. A certeza coletiva de que essa resistência é essencial para a vida e a democracia no Brasil ecoou entre todas as participantes.
Nos dias vividos na Aldeia, as mulheres reafirmaram sua condição de protagonistas na proteção do Cerrado e seu compromisso inabalável com a luta pela vida, pela água e pela democracia. Esta experiência marcante estabelece uma base sólida para um futuro em que as próximas gerações possam prosperar e continuar a luta de suas antecessoras.


